Pneu furado
29/09/2025 às 05:30
Foto de Kenny Eliason na Unsplash
por Luiz Felipe Leprevost

O pneu de trás do lado direito, arriado. Corri até o posto e calibrei os quatro. Três se mantiveram firmes, o de trás murchou de novo. Tirei o estepe da mala com os apetrechos. Fiquei orgulhoso de ter conseguido encaixar direito o macaco e levantar o carro. Aí me deparei com a falta de uma ferramenta com a qual tirar as tampinhas dos parafusos da roda. A chave de roda não encaixava de jeito nenhum. Pensei, pensei e não entendi para que servia o ferrinho curvado na ponta que vinha junto com o, vamos chamar assim, kit de primeiros socorros. Na impossibilidade de fazer a troca, já irritado e suando, baixei o carro, retirei o macaco e guardei tudo na mala. 

Pesquisei no Google, tinha uma borracharia mais ou menos perto da minha casa. Toquei para lá. A primeira coisa que o borracheiro fez, usando um ferrinho curvado na ponta (igualzinho ao que eu tinha), foi retirar com facilidade as tampinhas dos parafusos da roda. Santa ignorância de piá de prédio a minha, que se trocou pneu de carro duas vezes na vida foi muito. Vivendo e aprendendo. 

A segunda providência do profissional (que me atendia com atenção e qualidade), foi colocar o pneu numa banheira com água totalmente escura para ver saírem as bolhas de ar que acusam o lugar (ou lugares, no caso do meu pneu, como viria a saber) do furo. Ferimento encontrado, marcou a posição com giz amarelo. 

Em seguida, aplicou a técnica do macarrão — consiste em tira de borracha com cola que veda o furo ao ser externamente inserida com a ferramenta. Logo verificou-se a existência de outro ferimento por onde saía o ar.

Fez-se necessário retirar o pneu da roda para aplicação do método de vulcanização, reparo interno envolvendo aplicação de borracha aquecida por pressão (na chapa vulcanizadora, segundo me contou, o borracheiro já esquentou muita marmita) a fim de fundir com o pneu. Para isso, ele começou raspando o pneu por dentro, depois veio com cola preta e aí fixou o pedaço de borracha. 

Acompanhei tudo com interesse. Entramos numa conversa boa (a borracharia existe há quarenta anos ali na Jerônimo Durski, ao lado do Barigui). Pelas tantas, lembrei que, criança, ia com meu pai aos borracheiros e eles tiravam de dentro do pneu uma câmara de ar. Espantei-me ao saber que há mais de trinta anos pelo menos nem mesmo caminhões usam pneus com câmara, excetuando casos específicos como, por exemplo, pneus agrícolas. (Piazadinha se divertindo, usávamos como bóia essas câmaras de pneus de caminhão e trator no lago do Recreio da Serra, em Piraquara — isto fica para outra crônica).

Ao pagar pelo serviço, usei o Pix, o assunto enveredou para uma espécie de contraposição entre a internet e os trabalhos antigos e manuais como aquele. Falei que não ia a uma borracharia há décadas e que me admirei com o que tinha presenciado e aprendido ali. Voltei para casa duplamente feliz: porque o pneu estava consertado e porque tinha furado.
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